Escandiuzzi

Procuram-se boas notícias. Mas enquanto elas não surgem….

Posts Tagged ‘Dunga

A Copa da falta de educação

with 5 comments

Vocês repórteres, não têm criatividade. Todo lugar que vou me vêm com as mesmas perguntas. Não acredito que estudam na faculdade para me perguntar isso”

Presenciei esse diálogo – ou melhor coice – do técnico Dunga numa repórter da Bandeirantes em dezembro de 2008, em Blumenau, durante um jogo beneficente (isso mesmo beneficente) em prol das vítimas da enchente.

Horrorizou o tipo de resposta que deu à moça que aliás, parece que estava debutando em matérias nos campos de futebol. Ela ainda se justificou que tal questão era um pedido de seu editor. “Você não tem o opinião própria? Só pergunta o que mandam”, disparou Dunga, o impiedoso.

Minutos depois o entrevistei sobre o jogo beneficente. Quando desliguei o microfone, ele sorriu, disse que o povo estava do lado dele e que só se irritava com a “forma que alguns” lhe dirigiam as perguntas. Sorriu mais uma vez, colocou a mão no meu ombro e disparou: “Tem gente que pega um microfone e se sente como Deus”. Foi para o jogo. Minutos depois teve o nome gritado em côro pela torcida para que batesse um penâlti. Bateu. E fez o gol.

O tempo passa, o tempo voa e mesmo tendo abandonado os gramados, Dunga segue distribuindo pontapés, carrinhos e voadoras, tal como fez em toda a sua carreira de jogador.

Mas cá entre nós: quem já assistiu essas entrevistas coletivas de técnicos na íntegra? Quem viu dá para perceber como alguns repórteres apresentam um verdadeiro enunciado antes de fazer a pergunta. Parece que estão num debate, fazem análise do jogo, apontam erros do técnico e etc e tal… Tem coletiva que mais parece uma Inquisição.

Cada um tem sua postura, respeito. Mas devemos nós jornalistas, deixarmos de pensar que somos quase deuses… Que nossa palavra não pode ser questionada ou que não podemos ser criticados. Chegar numa coletiva e perguntar por que ganhou ou perdeu, como aconteceu, como viu o jogo, a arbitragem, o adversário e pronto. Quem analisa é o analista, o cronista, que muitas vezes nem está numa coletiva destas.

Como torcedor, aprovo o fechamento dos treinos, a seriedade dentro da concentração e o fim do abuso das matérias jornalísticas sobre a vida na concentração. Em 2006 havia um exagero, o pagodinho comendo solto aqui e ali, repórteres dentro de hotéis, passeios de jogadores e etc… Acabou. Ponto para Dunga.

Como jornalista, sou contra os abusos, os “privilégios e regalias” que eram até então destinados a Globo. Os resquícios deste domínio são tão fortes que um dos problemas na primeira folga da seleção foi uma entrevista exclusiva do atacante Robinho. Adivinhe para quem??? Dunga ainda, com exclusividade, apareceu no Jornal Nacional no dia da convocação para a Copa.

Dunga acabou com isso durante a Copa. Depois do torneio, os atletas podem dar entrevistas onde bem entenderem. Outro ponto para ele.

O capitão do tetra ganhou o apoio de internautas e gerou um manifesto gigantesco no twitter contra a Rede Globo, que já havia sido vítima do #calaabocagalvao. Contagiou a tal ponto que até o Kaká, menino de Deus, bonzinho, daqueles que não fazem mal a ninguém, se transformou. Foi expulso, xingou, indagou o filho do Juca Kfouri numa coletiva e até lascou Jesus Cristo no meio história.

É o Kaká do mal agora….

Agora, eu condeno a falta de educação. O que o Dunga fez após indagar o Escobar foi feio. Não só contra jornalistas como contra qualquer profissional, de qualquer atividade que seja, a grosseria não tem espaço. Se Dunga falasse aquilo comigo, era capaz de fazer igual o iraquiano contra George W. Bush e atirar um sapato em suas fuças.

Ao mesmo tempo, quando entro numa coletiva desligo o celular. Se preciso falar, deixo a sala. Por educação e respeito aos colegas do lado.

Falta de educação que tem sido uma coisa tão frequente nesta Copa. O francês Domenech fez isso com o pobre do Parreira hoje. Um horror. O próprio Domenech, que foi vítima de xingamentos por parte do atacante Anelka. A que ponto chegamos de dizer que o Maradona anda educadinho…. Resumindo, virou uma baixaria só…

O que fica de expectativa nesta história toda é que cobertura esportiva deste país mude um pouquinho. Espero que para melhor.

Written by Fabrício Escandiuzzi

junho 23, 2010 at 10:40 am

Salvem a Jabulani

with one comment

 

Recebi por e-mail, direto da África do Sul, um emocionado pedido de socorro de uma cidadã que diz ser vítima de terríveis agressões. Ela pede socorro porque mesmo com toda a imprensa do mundo em seu país, ninguém faz nada.

Pior: todo mundo está assistindo ao vivo, em todo o planeta, à série de torturas sofridas pela jovem e pobre Jabulani. 

Jabulani pede socorro

Tenho vergonha em falar sobre esse assunto. Fico muito encabulada. Mas está insuportável viver assim. Minha vida se transformou num grande inferno.

Podem me chamar de Ja…de Jabulani. Sou uma redonda cidadã sul-africana.

 Tenho sido vítima de maus tratos e agressões físicas impiedosas desde a última sexta-feira, dia 10 de junho. Não tenho como me defender por isso decidi fazer um manifesto.

Tudo começou bem antes. Palavras grosseiras, xingamentos e ofensas proferidas inclusive por vocês, brasileiros. Em alto e bom tom, me compararam com uma qualquer, dessas encontradas em qualquer esquina, qualquer supermercado. Me chamaram de coisa de outro mundo…. de mulher de malandro.

Até quem ganha a vida me agarrando e me encaixando foi impiedoso nas ofensas. Até tu, Júlio César?

Depois das ofensas, a situação começou a partir para as vias de fato. Mexicanos e até mesmo os conterrâneos africanos me deram o pontapé inicial.

O pior ainda viria… Franceses e uruguaios me bateram de tudo que foi jeito. Bateram tanto que se cansaram e passaram a se agredir uns aos outros. Foi terrível…

Quando achei que poderia ter uma folga, eis que chegou o dia seguinte. Como apanhei naquele sábado. Um coreano Chow Chow-alguma-coisa, me deixou roxa de tanto me dar caneladas. Foi uma atrás da outra.

Estou sofrendo. Não imaginam como foi ser judiada por ingleses, norte-americanos, gregos, nigerianos, argelinos, eslovenos, ganeses, australianos e sérvios. Esperava mais carinho até de holandeses e dinamarqueses. Mas o que aconteceu? Maus tratos. Cheguei a me oferecer com todo carinho para o lado de um goleiro inglês, mas ele tratou de me soltar rapidamente.

Ninguém me ama.

Será que ninguém me quer bem?

Eu sou a culpada por me baterem tanto? Uma agressão atrás da outra. Uma pancadaria globalizada. Não suporto mais essa Copa da África. O planeta inteiro assistindo ao vivo às sessões de tortura e, ao invés de me ajudarem, tocam aquela merda de Vuvuzelas e dançam para lá e para cá.

Me tirem desse mundo horroroso em que vivo. Batem com canelas, acertam minha orelha e me chutam para muito longe.. Fui criada para dar alegrias, mas não às custas de tamanho sofrimento.

E sabem o que é pior? Ainda vão me bater demais. Alguém tem dúvida? Vou passar por Honduras e Chile, Eslovênia e Estados Unidos, Austrália e Sérvia…. O que vai ser de mim….Não gosto de apanhar desse jeito.

Apenas argentinos e alemães me trataram cordialmente até aqui. Mas nada de muito especial. Minhas avós e tataravós, essas sim foram cortejadas, acariciadas e delicadamente tratadas anos e anos atrás.

Tenho esperanças que vocês, brasileiros, possam fazer o mesmo. Apesar de tanto me ofenderem nos últimos dias, acho que podem me tratar um pouco melhor do que os outros. Mas confesso que estou apavorada pois o Dunga tem o Josué e o Kleberson no banco de reservas.

O que vai ser de mim?

O mais curioso e triste da minha história é que Jabulani significa “celebrar” em um dos dialetos na África.

Peço ajuda e para o resto desta Copa do Mundo e espero mais sorte à bola escolhida para os jogos daqui a quatro anos, aí no Brasil. Aliás, ela poderia se chamar “Maria Chuteira”…

Written by Fabrício Escandiuzzi

junho 14, 2010 at 10:37 pm