Escandiuzzi

Procuram-se boas notícias. Mas enquanto elas não surgem….

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Enchente versão 2010

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Governador Leonel Pavan quase "furou" telão com a bengala - Foto: Divulgação SECOM

 

 

Na mesma velocidade que as águas do rio Itajaí-Açú começaram a subir, uma incrível enxurrada de releases, comunicados e apelos de políticos (ou pretensos candidatos a políticos) foi lotando a cota da minha caixa postal.

 Distribuição de lonas e colchões. Demonstrações de intensa preocupação. Atos de solidariedade. Pedidos de verba. Pedidos de reza, novenas e até apelos para que todos dessem as mãos. Tudo de uma só vez.

 Blumenau mais uma vez em alerta e a oportunidade de um ganho político coloca todo mundo em polvorosa.

O homem da vez, o governador Leonel Pavan, tratou de agir rapidamente. Anunciou que pediu 6 milhas para a Secretaria Nacional da Defesa Civil. Em seguida, deixou toda a tecnologia da “Sala de Situação 2.0” do Centro Administrativo de lado e usou a bengala para apontar o local das enchentes no telão de 60 polegadas.

Espero sinceramente que ele consiga as 6 pratas para atendimento das vítimas. O Luiz Henrique pediu e não teve a mesma sorte com o então ministro Geddel para projetos de prevenção. Se Santa Catarina se chamasse Bahia, com certeza teria recebido algo. E com isso, o Pavan hoje poderia pedir menos do que R$ 6 milhões.

Enquanto os releases vão chegando aos montes, fica a pergunta no ar:

 Quantos e quais detentores de mandato visitaram as moradias provisórias das vítimas de 2008 depois que os holofotes apontaram para outro caminho? 

 

Written by Fabrício Escandiuzzi

abril 27, 2010 at 9:18 am

Dona Guertha….

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Guertha diante de sua casa em Blumenau: a única entregue na cidade

 Esta é dona Guertha Arber Karl.

 Mora no bairro Fidélis, em Blumenau, e é uma das únicas vítimas da enchente de novembro de 2008 que ganharam uma casa.  Não foi do Poder Público, foi contemplada pelo Instituto Ressoar. Cheguei a sua casa e fiquei impressionado com a triste história que a ex-moradora do Morro do Baú me contou. Na tragédia, dona Guertha perdeu os pais, marido, um filho de 28 anos e uma filha grávida de cinco meses.

 Tudo de uma só vez.

 Desde então, ela foi internada várias vezes com problemas de pressão alta e evita lugares onde há qualquer tipo de aglomeração de pessoas. A sua luta nos últimos meses foi para conseguir, enfim, construir um túmulo de mármore para o marido e o filho. “Sei que nunca mais serei a mesma”, diz. “Queria ter tido tempo de me despedir. Falar adeus”.

 1080 pessoas ainda moram em sete abrigos na cidade de Blumenau. Eu os visitei para elaborar um vídeo com algumas histórias. Dona Guertha foi quem mais me impressionou. Recolhe animais pela rua, mora com o único filho de 22 anos que sobrou na tragédia. A única recordação que tem família é a lembrança e três fotos 3×4 que estavam em sua bolsa. Bolsa aliás, que foi encontrada por acaso boiando em um rio do Baú.

 O resto, todo o resto, ficou debaixo de lama.

 Dona Guerta me impressionou não porque tem uma história de superação ou porque tenha se reerguido após o desastre. Muito pelo contrário.  Sua história não vai se transformar num filme de Hollywood, daqueles em que vemos pessoas em situação terrível se levantarem, vencerem e deixarem a platéia chorando… Que ela nunca mais será a mesma, disso qualquer um não tem a menor dúvida. Se vai, um dia, sorrir por qualquer coisa que seja, só o tempo vai dizer.

 O que mais me impressionou em dona Guertha foi o fato de ter percebido o quanto é cruel a herança deixada por aquele terrível mês de novembro de 2008.  Nem mesmo acompanhar os trabalhos de resgate me deixou tão angustiado….

 Tive vergonha de sequer pensar em lamentar ou reclamar de algo na minha vida.  

 

Written by Fabrício Escandiuzzi

abril 25, 2010 at 1:25 am