Escandiuzzi

Procuram-se boas notícias. Mas enquanto elas não surgem….

O café e a porcelana

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Essa semana percebi o quanto a economia que o governo de Santa Catarina está tentando fazer é ferrenha. Muito bom isso.

Participei de um curso voltado a famílias que pretendem adotar crianças. É uma exigência da legislação e onde as pessoas são informadas de todas as etapas de um – longo, diga-se de passagem – processo de adoção.

Cheguei ali, assinei a lista e ganhei um pastinha, com um bloquinho, uns folders do programa, e uma caneta BIC. O evento durou umas cinco horas (pouco mais ou pouco menos, não recordo). Muito interessante, percebi coisas que não sabia e assisti a um bom documentário feito pela colega jornalista Angela Bastos sobre o tema.

Ao fim do curso, uma das assistentes sociais que trabalham no Fórum, educadamente e até meio constrangida, pediu que na saída pudéssemos devolver a caneta BIC. A explicação é de que o material teria sido emprestado e que outros cursos ocorreriam para mais pretendentes nos próximos dias.  Devia ter umas 30 pessoas ali. 30 canetas no máximo…Fiquei com tanta pena que quase dei uma caneta minha que estava no bolso. Tudo para poder ajudar…

Depois ainda fomos informados que o mutirão (ou força-tarefa, como os políticos gostam de dizer) para agilizar os processos de adoção não seria mais realizado devido ao corte de custos. São quatro os funcionários que analisam um a um (e detalhadamente), cada um dos arquivos com pilhas de documentos dos pretendentes. Um ou dois novos assistentes agilizariam toda a questão e diminuiriam o tempo de espera das crianças em abrigos públicos.

Pois bem, pensei assim. Poder Público cria uma campanha de adoção, monta um site, gasta grana com propaganda e não tem como colocar uma assistente a mais para conta dos processos?

Aí fui dar uma olhada no Portal da Transparência e vi umas coisas intrigantes. O custo das secretarias regionais de Santa Catarina é uma coisa que foge ao meu pouco conhecimento econômico. Quem buscar ali no portal o item “despesas pagas” vai notar a quantidade de recursos empenhados na contratação de terceirizados. Copeiros, digitadores, motoristas, recepcionistas, serventes, profissionais de toda a espécie, consultoriais, telefones celulares, diárias e etc. 

Só na SDR de Quilombo, foram empenhados R$ 55.017,80 para serviços de vigilância.

Em Palmitos, o custo de dois digitadores e uma telefonista é de 76,7 mil reais. Em São Joaquim, serviço semelhante (três digitadores) custou 102 mil pilas. 

E por aí vaí… Não olhei todos… Parei antes que arrancasse meus cabelos brancos. Deu tempo de ver, antes de ficar careca, que em Blumenau a empresa de terceirização já levou R$ 192 mil, em Chapecó lá se vão outros R$ 82 mil. 

Em Joinville, maior cidade do estado, a terceirização de alguns profissionais já custou R$ 170 mil este ano. Em Lages, a SDR local já desembolsou R$ 200.638,77 para uma empresa de vigilância e terceirização. 

E existem outros gastos, como o pagamento de aluguel e taxas de condomínio. A SDR da Grande Florianópolis desembolsa 17.428,00 mensais para o aluguel de três andares de um prédio próxima a BR 101. Outros R$ 2.895,13 morrem mensalmente na taxa de condomínio… Ahhh, e 121 mil reais já foram pagos este ano a título de “vigilância orgânica” (sem agrotóxicos?????)…

Que o governo está no caminho certo em economizar, isso está. Mas não adianta você cortar a carne moída da sua casa e continuar mantendo a pose, tomando cerveja premium e se esbaldando de picanha em uma churrascaria. O furo continua..

Não era mais fácil enxugar essas máquinas que comem tanto dinheiro e investir no que pode dar retorno? Não falo em sair dando canetas BIC para todo mundo, mas reforçar a questão das assistentes sociais e zerar a demanda dos processos de adoção, por exemplo, poderia fazer com que mais crianças ganhassem famílias. Isso reduziria um pouco o custo do estado, que precisa acolher essas pequenas criaturas, oferecer alimentação, assistência e etc…

Isso é só em caso. Se pegarmos o que pode ser feito em educação, saúde e segurança, vamos longe…

Por toda Santa Catarina, o que se vê é o uso incorreto de recursos nessas secretarias regionais. E o Tribunal de Contas? Bem, esse nunca vai dar um parecer contrário a nada. É só olhar os valores dos mobiliários e dos elevadores comprados para o palácio de cristal, aquele ali perto da Assembléia Legislativa. Nem olhei tudo, confesso, pois estava quase jogando o cumputador na parede. Olhem por vocês mesmos.. Não quero contribuir com o mau humor de ninguém trazendo dados tão chocantes neste espaço.

Resumindo essa longa história, quero frisar que é louvável o trabalho do governo em cortar radicalmente gastos. Trabalho difícil esse. Mas correto. A gente faz isso em casa, porque o administrador não pode fazer? Creio que isso deve ser ampliado para as SDRs e outros órgãos públicos.

O lema agora é: Chega de distribuir canetas BIC a torto e direito para o povão. 

O governador Raimundo Colombo tem nas mãos a grande chance de rever o alto custo da máquina causado por essas SDRs. Não precisa extinguir todas, mas cabe um ajuste rígido.

Caso contrário, vai ficar conhecido como o governo que cortou o pó de café, mas continuou com as xícaras de porcelana…

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Written by Fabrício Escandiuzzi

julho 21, 2012 às 3:59 am

Publicado em Brasil

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